Parece que o público leitor – que nunca foi dos maiores neste país, por sinal – está cada vez menos interessado em sentir a celulose do papel, em passar as mãos pelo texto, e quem sabe depois de ler a publicação de cabo a rabo. Essa noção de palpável faz falta aos textos da internet ou mesmo daqueles aparelhos em formato de tabuleta.
E quando o sujeito resolve comprar o jornal, ainda coloca em dúvida um dos tradicionais pilares do jornalismo: a atualidade. Na semana passada, por exemplo, estava indo à padaria comprar um pão fresquinho. Fiz meu pedido, peguei os produtos e fui para a fila. Lá, um moço aparentemente humilde comprava uns biscoitos e um suco. “Também vou querer o jornal”, ele diz para a atendente. Simpática que só, a funcionária primeiro abre um sorriso para depois perguntar qual jornal ele queria. Eis que o homem vira para ela e responde: “O de hoje, por favor”.
Oras, existe jornal que não seja de hoje? Até onde eu sei, existe um esforço descomunal de empresas como a Folha e o Estado para que, logo cedo, as vans e kombis distribuidoras de jornal percorram a cidade inteira, entregando as notícias nos jornaleiros e nas casas das pessoas. Acabou-se o dia, é como se os jornais antigos que encalharam nas gôndolas automaticamente desaparecessem de vista. E então leva mais algumas horas para que o outro jornal, agora sim desse mesmo dia, pinte nos estabelecimentos comerciais, inclusive na padaria onde eu tinha ido.
A atendente ficou meio desconcertada. Respondeu que o senhor precisava escolher o título do jornal que pretendia levar, já que os preços variam. “Tem a Folha, o Jornal da Tarde, o Estadão, o Agora…”, disse. No fim das contas, ele levou o Agora, vai ver porque é o que mais se assemelha com o “de hoje” que ele queria – o Jornal da Tarde não estava valendo; imagine ler as notícias que só vão acontecer dali a algumas horas!
Depois que o moço pegou seu exemplar e se escafedeu de vista, fui comentar com a atendente sobre o episódio. Disse que estava perplexo e que, como bom estudante de Jornalismo, não acreditava que alguém pediria um jornal “de hoje”, sendo que todos os jornais são, apenas em tese, pelo visto, do mesmo dia em que são comprados.
Ou talvez eu não tenha entendido nada sobre esse tal de Jornalismo e o moço só queria um papel qualquer para forrar a gaiola dos seus pássaros de estimação. Nada mais justo. Afinal, esse sempre foi outro nobre papel do papel-jornal.
Por Thássius Veloso